quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Linha 028

               


             Todos os dias pontualmente às 07h50min da manhã encontro o meu companheiro de viagem no 028. É o Seu Joaquim, que é figurinha carimbada e querida por todos os passageiros diários da linha. Ele beira os 70 e parece ter saído de um baile antigo da Lapa: sempre está de chapéu estilo panamá e um blazer bege bem alinhado.
            Os boatos são de que Seu Joaquim já está meio caduco e por isso se veste tão elegantemente para pegar o abarrotado e nada glamoroso 028. Acho que ele se veste mesmo é pro show que dá enquanto subimos a T9, na avenida ele diverte a todos com histórias dos tempos que não vivemos. Conta da sua esposa Carol, que às vezes a memória chama de Cecília e do noivado tumultuado dos dois já que o sogro era Coronel. Conta dos estados que visitou, das mulheres que teve.
            As histórias nem sempre batem, vez ou outra a sua memória falha mas sempre saio do 028 emocionada com as lembranças daquele menino velho. Hoje resolvi entrar na brincadeira e dei um pouco de corda pro meu amigo, disse que me chamava A – ME – TIS – TA e que era nova na cidade. Ele disse que tinha certeza de que era turca, que meu nome só comprovava as suspeitas e me contou de uma “conterrânea” que conheceu certa vez, uma rápida paixão. O romance não deu muito certo mas ele diz que até hoje tem na memória o perfume da moça.
            Amanhã vou pegar novamente o 028 e encontrar o Seu Joaquim, escutá-lo contar da sua esposa que às vezes é Carol e outras é Cecília. Ele vai perguntar o meu nome e vou responder. Talvez diga a verdade ou talvez possa inventar que sou Marina ou Suzana, assim ele me contará uma história diferente e outro romance. O fato é que Seu Joaquim, contando uma história de verdade ou não, com a memória funcionando ou meio capenga, já é um pedacinho gigante de Goiânia no meu coração.

Um comentário:

  1. que fofo o seu Joaquim!

    Gostei muito do seu blog Ametista! Parabéns!

    Bjo...ou melhor grande abraço! rs

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